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3.2.09

Refugiado politico ou criminoso

Encomendado pela equipe do Pensamentos Urbanos para o Dr. Almir Ramos da Silva um texto sobre o caso Batisti, trazendo uma opinião de um profissional idôneo do Direito sobre o caso. O caso Batisti tem levantado muita polêmica e nós do Pensamentos Urbanos levantamos a bandeira da extradição para este caso, gostaria de pedir para que leiam com bastante atenção, pois como disse é um texto muito bem escrito de um caso bem complicado. se possivel baixem em PDF e ou imprimam, pois é um texto que vale a pena guardar para futuras reflexões.
Obrigado Dr. Almir pelo texto e pelo serviço prestado para os leitores que pensam aqui conosco.


Será que “Vox populi” é mesmo “Vox Dei”? (a voz do povo, vontade de Deus)

Hesitei muito em escrever sobre esse tema por gerar ele tantas e tão apaixonadas opiniões contrastadas.
O asilo político oferecido ao “escritor” italiano Cezare Batistinni, em contrapartida à negativa de asilo aos pugilistas cubanos (os do Pan Rio 2007), tem gerado apaixonadas defesas e violentas críticas.
Uns dizem tratar-se de dois pesos, duas medidas, e, confesso, também assim pensava, outros dizem tratar-se de casos diferentes, sobretudo porque os cubanos pediram para voltar à Cuba, o que foi prontamente concedido, sem o alarde que se esperaria do Governo.
São, de fato, casos diferentes, como diferente era o caso do banqueiro Salvatore Cacciola, cuja prisão feita na bucólica Mônaco, atendia à Justiça brasileira.
O caso atual, o do escritor, tem contornos diferentes, não ventilados nos outros exemplos lembrados tanto pelos jornalistas (neutros, de esquerda ou de direita, guardadas as devidas proporções) quanto pelos internautas e estudantes, todos debatedores do tema.
O fato é que o Ministro Tarso Genro, no caso presente, entendeu que o italiano teria tido sua defesa cerceada na Italia e que seu julgamento, feito por seus conterrâneos, conteria máculas e teria sido um tribunal de exceção, o que é repudiado pelo Direito Internacional. Da mesma forma entende o nosso líder ministerial da pasta da Justiça que os crimes imputados ao réu teriam cunho político, assim, sendo abrangido pela legislação brasileira a qual alberga asilo a quem o solicita.
Para compor o cenário do drama atual, convém atentar que o defensor, no Brasil, de Batistinni é o controverso Luiz Eduardo Greenhalgh, o mesmo advogado que teria obstruído as investigações sobre a morte (ainda não solucionada) do prefeito de Santo André, e correligionário do Ministro Genro, ostentando ambos a bandeira do Partido dos Trabalhadores.
Pois bem, inconformado com o excesso de opiniões e escassez de informações, deitei os olhos na lei 9.474/97, o Estatuto dos refugiados, base para a decisão do Ministro e alicerce dos que defendem posição diferente, assim pelo menos deveria ser.
Diz o diploma em seu artigo 1º:
Art. 1º Será reconhecido como refugiado todo indivíduo que:
I - devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país;
II - não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior;
III - devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país.
Passemos a decantar o dispositivo.
Refugiado (político) é, pela lei, aquele individuo que possua temores de perseguição por motivos de raça, credo, nacionalidade, grupo social ou opinião política.
É também aquele que não possa ou não queira regressar ao seu país em razão das circunstâncias por ela elencadas.
Por fim, é aquele que é obrigado a deixar seu país por motivo de violação grave e reiterada dos direitos humanos (por parte do país, claro).
Vejamos o caso em tela: o nosso refugiado político (status que ganhou, ainda que venha a ser revogado o decidido pelo Ministro – o que não creio) se enquadraria em qual desses dispositivos? Olhando friamente, o nosso atento representante ministerial entendeu que o escritor era perseguido em seu país (Itália) por motivos políticos.
Isso nos força a procurar o que vem a ser o motivo político.
São os motivos para perseguição política aqueles atos que se contrapõe à situação do país, ou seja, atitudes contrárias às desejadas pelos governantes daquele determinado país.
Os agentes perseguidos se voltam violentamente ou pacificamente contra o regime político vigente e por isso sofrem determinadas sanções.
Por paradoxal que pareça, a Itália teria julgado os crimes comuns imputados ao escritor (concernentes ao homicídio de quatro pessoas), o qual, por acaso, fez parte de grupos radicais contrários à ordem então estabelecida naquela Nação soberana.
As pessoas mortas eram de alguma forma importantes ao regime da época?
Eram eles: um açougueiro, um joalheiro, um neofascista e um carcereiro. Dessas personagens, talvez somente o carcereiro ou o “neo facista” (ou o que quer que isso signifique) teriam algum relacionamento com a política, os outros nada tem de políticos ou de alguma forma influentes. Quem deles teria importância capital ao regime estabelecido que a morte seria capaz de desestruturar, ainda que moralmente, as instituições políticas?
Parece que nenhum, nem mesmo o representante da juventude hitlerista.
Por esse prisma, o Ministro aparentemente foi precipitado.
Vejamos o que ele disse:
“O Estado requerente não ofereceu oposição à alegada conotação política aventada quanto aos fatos pelos quais seu nacional é reclamado. Ao contrário, consignou expressamente em sentença que, nos diversos crimes listados, agiu o Recorrente “com a finalidade de subverter a ordem do Estado”, afirmando ainda que os panfletos e as ações criminosas de sua lavra objetivavam “subverter as instituições e a fazer com que o proletariado tomasse o poder””.
Vê-se, portanto, que no caso ora em análise impõe-se uma inquietante e crucial questão central: o Recorrente possui fundado temor de perseguição por suas opiniões políticas? Teria o Recorrente, ademais, cometido crimes políticos, ou sofrido perseguição política que resultasse na constatação de ilícitos criminais por ele não perpetrados?
Há que se definir os elementos subjetivo e objetivo do temor a que alude o art. 1º, I, da Lei nº. 9.474/97, o primeiro relativo ao foro íntimo do Recorrente e o segundo relacionado com as razões concretas que justifiquem aquele temor.
Para que sejam verificados esses elementos, é necessário, em primeiro lugar, tomar como referência o contexto de turbulência política à época dos supostos delitos em que o Recorrente teria incorrido.
A repressão legítima, pelo Estado italiano, à militância de esquerda, que pretendeu, pelas armas, derrubar o regime durante os chamados “anos de chumbo” das décadas de 1970 e 1980, traduz-se por fatos públicos e notórios, sobre os quais não existe qualquer contencioso. É de acentuada convulsão social o momento histórico no qual o recorrente foi condenado pela Justiça italiana, como autor e co-autor de homicídios ocorridos entre junho de 1978 e abril de 1979.
Durante esse período, a sociedade italiana e o Estado de Direito na Itália foram assediados por um conjunto de movimentos políticos, ações armadas e mobilizações sociais que pretendiam, alguns deles, a instalação de um novo regime político-social. Na esteira do desmantelamento das políticas da era social-democrata então em declínio , formaram-se organizações revolucionárias de ação direta que operavam em zonas “cinzentas”, na estreita faixa entre a ação política insurrecional de caráter armado e a ação marginal do “banditismo social”.
Como é possível e necessário nos Estados Democráticos de Direito, o Estado italiano reagiu. E o fez não só aplicando normas jurídicas em vigor à época, mas também criando “exceções”, por meio de leis de defesa do Estado, que reduziram prerrogativas de defesa dos acusados de subversão e/ou ações violentas, inclusive com a instituição da delação premiada, da qual se serviu o principal denunciante do Recorrente.
Nos momentos de extrema tensão social e política é comum e previsível que passem a funcionar, mesmo no Estado de Direito, aparatos ilegais e/ou paralelos do Estado, comandados por pessoas que se erigem à condição de justiceiros “de fato”, como se representassem o bem público, o que por vezes configura uma forte crise de legalidade: “a lei perde (...) o primado político no sistema”. Nesses casos, a judicialização da política, paradoxalmente, atinge garantias democráticas sem que o regime democrático seja colocado em dúvida.
Situações de emergência como a italiana – no caso, a luta contra a fúria assassina que redundou no assassinato de Aldo Moro – motivam uma preocupação candente com o funcionamento dos aparatos repressivos. É fundamental, porém, que jamais seja aceita a derrogação dos fundamentos jurídicos que socorrem os direitos humanos. No caso italiano, as possibilidades para que os abusos ocorressem estavam dadas pelo próprio ordenamento jurídico forjado nos “anos de chumbo”:
“A magistratura italiana foi então dotada de todo um arsenal de poderes de polícia e de leis de exceção: a invenção de novos delitos como a ‘associação criminal terrorista e de subversão da ordem constitucional’ (artigo 270 bis do Código Penal) veio se somar e redobrar as numerosas infrações já existentes – ‘associação subversiva’, ‘quadrilha armada’, ‘insurreição armada contra os poderes do Estado’ etc. Ora, esta dilatação da qualificação penal dos fatos garantia toda uma estratégia de ‘arrastão judiciário’ a permitir o encarceramento com base em simples hipóteses, e isto para detenções preventivas, permitidas pelo artigo 10 do decreto-lei de 15 de setembro de 1979 por uma duração máxima de dez anos e oito meses.”
É público e incontroverso, igualmente, que os mecanismos de funcionamento da exceção operaram, na Itália, também fora das regras da própria excepcionalidade prevista em lei. Tragicamente, também no Estado requerente, no período dos fatos pertinentes para a consideração da condição de refugiado, ocorreram aqueles momentos da História em que o “poder oculto” aparece nas sombras e nos porões, e então supera e excede a própria exceção legal. Nessas situações, é possível verificar flagrantes ilegitimidades em casos concretos, pois a emergência de um poder escondido “é tanto mais potente quanto menos se deixa ver”.
Isso é professado em nome da preservação do Estado contra os insurgentes, que não é menos ilegítima do que as ações sanguinárias dos insurgentes contra a ordem. Também me valho da lição de Bobbio:
“Quem decidiu ingressar num grupo terrorista é obrigado a cair na clandestinidade, coloca o disfarce e pratica a mesma arte da falsidade tantas vezes descrita como uma das estratagemas do príncipe. Mesmo ele respeita escrupulosamente a máxima segundo a qual o poder é tanto mais eficaz quanto mais sabe, vê e conhece sem se deixar ver”.
Por outro lado, entre os teóricos do Direito que não crêem na democracia liberal, Carl Schmitt, afirma: “Na necessidade suprema o direito supremo prova o seu valor [bewährt sich] e manifesta-se o grau mais elevado da realização judicantemente vingativa desse direito. Todo o direito tem a sua origem no direito do povo à vida. Toda a lei do Estado, toda a sentença judicial contém apenas tanto direito quanto lhe aflui dessa fonte. O resto não é direito, mas um ‘tecido de normas positivas coercitivas’, do qual um criminoso hábil zomba” . Ou seja, para Schmitt, as conquistas jurídicas humanistas das luzes não valem, porque delas o delinqüente inteligente pode zombar. Para Bobbio, no entanto, quanto mais exceção, menos Democracia e menos Direito.
Determinadas medidas de exceção adotadas pela Itália nos “anos de chumbo”, por sinal, ressoam ainda hoje nas organizações internacionais que lidam com direitos humanos. A condenação a determinados procedimentos e penas motivou, de um lado, relatórios da Anistia Internacional e do Comitê europeu para a prevenção da tortura e das penas ou tratamentos desumanos ou degradantes e, de outro, a concessão de asilo político a ativistas italianos em diversos países, inclusive não europeus.
Outros evadidos da Itália por motivos políticos vinculados à situação do país na década de 1970 e início dos anos 1980, mesmo período da fuga do Recorrente, não foram extraditados para o país pelo Supremo Tribunal Federal. Note-se, nesse sentido, a Extradição nº 694, na qual a condenação italiana, como no caso do Recorrente, apontava o objetivo do extraditando de
“subverter violentamente a ordem econômico e social do Estado italiano, de promover uma insurreição armada e suscitar a guerra civil no território do estado, de atentar contra a vida e a incolumidade das pessoas para fins de terrorismo e de eversão da ordem democrática.”
A preocupação com os limites do poder de “exceção” deve ocorrer – mesmo nos seus momentos mais duros – tanto no que se refere às normas de ordem material, como naquelas de ordem processual. Todas as normas, sejam excepcionais ou não, carregam, no sistema de direito orgânico à democracia, o permanente apelo à “razoabilidade” e à “proporcionalidade” . É fundamental, portanto, que aos que desobedecem a lei sejam estendidas todas as garantias da ordem jurídica democrática .
O Recorrente sentiu diretamente os efeitos da legislação de exceção italiana. As acusações sobrepostas a que respondeu foram possibilitadas pelos procedimentos e tipos penais singulares desenvolvidos pelo Estado requerente, em grande parte aplicáveis por força do envolvimento do Recorrente no grupo conhecido como PAC (Proletários Armados para o Comunismo).
Após fugir da Itália em 1981, o Recorrente foi condenado pela Justiça do país, como autor e co-autor de homicídios ocorridos entre junho de 1978 e abril de 1979. Vislumbra o Recorrente, no caso, falta de oportunidades para que desenvolvesse sua ampla defesa. Nesse sentido, é de se notar que as acusações não buscam esteio em provas periciais, fundamentando-se precipuamente em uma testemunha de acusação implicada pelos próprios fatos delituosos, qual seja, o delator premiado Pietro Mutti.
Poderia argüir-se que as acusações que pesam sobre o Recorrente dizem respeito à violação da lei penal comum, não fosse o fato de que tais acusações constituem, em alguns casos, a “justificativa” jurídica do Estado requerente, sem a qual as chances de entrega do nacional requerido ficaram indubitavelmente prejudicadas.
É sintomático, nesse sentido, que as decisões condenatórias, ao arrolar os tipos penais que o Recorrente teria praticado, apontem serem todas integrantes de “um só projeto criminoso, instigado publicamente para a prática dos crimes de associação subversiva constituída em quadrilha armada, de insurreição armada contra os poderes do Estado, de guerra civil e de qualquer maneira, por terem feito propaganda no território nacional para a subversão violenta do sistema econômico e social do próprio País” (grifei)
Segundo o Recorrente, a natureza política de seus crimes é não apenas evidente como confirmada pela maneira de o Estado requerente haver conduzido os processos criminais e os pedidos de extradição. Corroboram essa perspectiva as qualificações dadas a seus atos pelos processos de condenação em primeira instância e o fato de ser preso na Divisione investigazioni generali operazioni speciali, onde se lotavam os presos políticos dos “anos de chumbo”.
O Recorrente junta aos autos carta de Francesco Cossiga, influente político italiano nos anos 1970, que participou ativamente da elaboração das leis de emergência italianas . Hoje Senador da República italiana, Cossiga atesta que os “subversivos de esquerda” passaram a ser tratados, na Itália dos “anos de chumbo”, como “simples terroristas e talvez absolutamente como ‘criminosos comuns’.” O missivista assevera, contudo, a impropriedade desta classificação impingida ao Recorrente:
“Vocês todos, de esquerda e de direita eram ‘revolucionários impotentes’: em particular vocês subversivos de esquerda que acreditavam com atos de terrorismo, não certamente de poder ‘fazer’, mas pelo menos ‘escorvar’ a revolução, conforme os ensinamentos de Lenin, que condenava em via de princípio o ‘terrorismo’, mas que justificava ou melhor achava útil e ‘legítimos’ dum ponto de vista do marxismo-lenininsmo, os atos de terrorismo só se ‘propedêuticos’ a revolução e capazes de conduzi-la. Os crimes que a subversão de esquerda e a eversão de direita cumpriram, são certamente crimes, mas não certamente ‘crimes comuns’, porém ‘crimes políticos’.”
A respeito da criminalidade política e de sua caracterização em face dos instrumentos de cooperação internacional, observe-se o ensinamento de Francisco Rezek, Direito Internacional Público, 11ª ed., São Paulo: Saraiva, 2008, pp. 214-215:
“Asilo político é o acolhimento, pelo Estado, de estrangeiro perseguido alhures – geralmente, mas não necessariamente, em seu próprio país patrial – por causa de dissidência política, de delitos de opinião, ou por crime que, relacionados com a segurança do Estado, não configuram quebra do direito penal comum. Sabemos que no domínio da criminalidade comum – isto é, no quadro dos atos humanos que parecem reprováveis em toda parte, independentemente da diversidade de regimes políticos – os estados se ajudam mutuamente, e a extradição é um dos instrumentos desse esforço cooperativo. Tal regra não vale no caso da criminalidade política, onde o objetivo da afronta não é um bem jurídico universalmente reconhecido, mas uma forma de autoridade assentada sobre ideologia ou metodologia capaz de suscitar confronto além dos limites da oposição regular num Estado democrático.” (grifei).
Não resta a menor dúvida, independentemente da avaliação de que os crimes imputados ao recorrente sejam considerados de caráter político ou não – aliás inaceitáveis, em qualquer hipótese, do ponto de vista do humanismo democrático – de que é fato irrefutável a participação política do Recorrente, o seu envolvimento político insurrecional e a pretensão, sua e de seu grupo, de instituir um poder soberano “fora do ordenamento”. Ou seja, de constituí-lo pela via revolucionária através da afronta política e militar ao Estado de Direito italiano, aliás, motivos estes que levaram o presidente Mitterrand a acolher o recorrente e vários militantes da extrema esquerda italianos na mesma situação.
Aspecto muito importante aqui, para examinar a pertinência de concessão do refúgio, é que o Recorrente esteve abrigado em solo francês por razões políticas aceitas por decisão soberana do chefe de Estado daquele país. Aliás, na oportunidade o presidente François Mitterrand acolheu os “subversivos” sob a condição categórica de que fizessem a renúncia formal à luta armada.
Não é singelo o fato de que o Recorrente tenha feito expressa opção por renunciar aos meios não pacíficos de manifestação política. Hannah Arendt alerta que “se a mente é incapaz de fazer a paz e de induzir a reconciliação, ela se vê de imediato empenhada no tipo de combate que lhe é próprio” – e por isso mesmo a autora ressalta a dimensão política dos juízos retrospectivos. Entre o passado e o futuro, o homem conta apenas com si mesmo para ceder ou resistir aos impulsos de amor e ódio, fúria ou compaixão, impulsos que se confundem quando destino e motivações, desejos e princípios são mesclados.
Após a renúncia à luta armada, o Recorrente permaneceu na França, por um período de mais de uma década. Constituiu família, casando-se e tendo duas filhas, vivendo pacificamente como zelador e escritor. O Recorrente, em suas próprias palavras, teria permanecido na França se pudesse, onde inclusive formulou pedido de naturalização e gozava de um asilo político informal.
A situação do Recorrente foi alterada durante o governo do presidente Jacques Chirac. O abrigo do recorrente, no território francês, foi desconstituído e então anulado por razões eminentemente políticas. A mudança de posição do Estado francês, que havia lhe conferido guarida como militante político de extrema esquerda, foi o motor único de seu deslocamento para o Brasil. A extradição do Recorrente à Itália, que primeiro havia sido negada na França por razões políticas, foi posteriormente concedida pelas mesmas razões.
O Brasil, em vista desses acontecimentos políticos (mormente a mudança de governo na França), passou a ser “depositário” de um cidadão, de fato expulso de um território por decisão política, que se contrapôs à decisão anterior, a qual havia o reconhecido como perseguido político .
Por motivos políticos o Recorrente envolveu-se em organizações ilegais criminalmente perseguidas no Estado requerente. Por motivos políticos foi abrigado na França e também por motivos políticos, originários de decisão política do Estado Francês, decidiu, mais tarde, voltar a fugir. Enxergou o Recorrente, ainda, razões políticas para os reiterados pedidos de extradição Itália-França, bem como para a concessão da extradição, que, conforme o Recorrente, estariam vinculadas à situação eleitoral francesa. O elemento subjetivo do “fundado temor de perseguição” necessário para o reconhecimento da condição de refugiado está, portanto, claramente configurado.
À luz do que foi brevemente relatado, percebe-se do conteúdo das acusações de violação da ordem jurídica italiana e das movimentações políticas que ora deram estabilidade, ora movimentação e preocupação ao Recorrente, o elemento subjetivo, baseado em fatos objetivos, do “fundado temor de perseguição”, necessário para o reconhecimento da condição de refugiado.
A título de esclarecimento, aponta-se a qualidade política da decisão sobre o refúgio. Segundo Francisco Rezek, Direto Internacional Público, São Paulo: Renovar, 2º vol., 15ª ed. 2004, verbis:
“A qualificação de tais indivíduos como refugiados, isto é, pessoas que não são criminosos comuns, é ato soberano do Estado que concede o asilo. Cabe somente a ele a qualificação. É com ela que terá início ou não o asilo.”
É bom que reste claro que o caráter humanitário, que também é princípio da proteção internacional da pessoa humana, perpassa o refúgio, implicando o princípio in dubio pro reo: na dúvida, a decisão de reconhecimento deverá inclinar-se a favor do solicitante do refúgio.
Nesse diapasão, a Constituição Federal de 1988 estabelece em seu art. 4º a política de relações internacionais a ser observada no País:
Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: (...)
X - concessão de asilo político.
As normas internacionais que o Brasil está obrigado a observar consignam, ainda, no capítulo da proteção da pessoa humana, que o pedido de refúgio deve ser julgado pela Autoridade com atenção detida e serena ao caráter protetivo da medida. Nesse contexto, transcrevo o art. XIV da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que inspirou os princípios das convenções supervenientes, bem como a Declaração sobre asilo territorial aprovada pela Assembléia da ONU, respectivamente:
Todo homem, vítima de perseguição, tem o direito de procurar gozar asilo em outros países.
Toda pessoa vítima de perseguição tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
Por fim, assinala-se que não há impedimentos jurídicos para o reconhecimento do caráter de refugiado do Recorrente. Embora se reporte a diversos ilícitos que teriam sido praticados pelo Recorrente, em nenhum momento o Estado requerente noticia a condenação do mesmo (sic) por crimes impeditivos do reconhecimento da condição de refugiado, estabelecidos no art. 3º, inc. III, da Lei nº. 9.474/97, o que importa no afastamento das vedações estabelecidas no citado comando legal:
Art. 3º Não se beneficiarão da condição de refugiado os indivíduos que: (...)
III - tenham cometido crime contra a paz, crime de guerra, crime contra a humanidade, crime hediondo, participado de atos terroristas ou tráfico de drogas;
Concluo entendendo, também, que o contexto em que ocorreram os delitos de homicídio imputados ao recorrente, as condições nas quais se desenrolaram os seus processos, a sua potencial impossibilidade de ampla defesa face à radicalização da situação política na Itália, no mínimo, geram uma profunda dúvida sobre se o recorrente teve direito ao devido processo legal.
Por conseqüência, há duvida razoável sobre os fatos que, segundo o Recorrente, fundamentam seu temor de perseguição.
Nesse passo o Ministro fundamentou sua decisão.
Cabem algumas observações, agora com base nos fatos, e não na opinião (que tem regado o assunto).
Disse o letrado Ministro Genro: “Na esteira do desmantelamento das políticas da era social-democrata então em declínio, formaram-se organizações revolucionárias de ação direta que operavam em zonas “cinzentas”, na estreita faixa entre a ação política insurrecional de caráter armado e a ação marginal do “banditismo social”.
Parece que nosso representante maior da Justiça brasileira entendeu que há uma estreita linha dividindo os crimes comuns dos crimes políticos, assim seria melhor elucidar qual seria a diferença entre matar um general ou edil, da de matar um açougueiro ou um joalheiro, a diferença entre oprimir um prefeito ou governador e ceifar a vida a um carcereiro.
Adiante o Ministro passa a fazer ele mesmo o julgamento que deveria ter sido feito na Itália (segundo ele mesmo) e não foi porque o Estado soberano europeu estaria usando de exceções e teria feito um julgamento com base em hipóteses (e não em fatos) e o teria feito à revelia, já que o réu encontrava-se refugiado político informal, figura que eu confesso não ter estudado em momento nenhum, já que não há nos livros, nem mesmo do festejado Rezek, nada sobre esse tema.
Apesar disso, dos comentários, o bem fundamentado parecer convence por conter matéria jurídica robusta, diferente do arsenal que procura desvalorizar a decisão.
É que o Direito deve abstrair o sujeito do julgador, suas crenças políticas e sociais, deve abranger a totalidade das pessoas e não apenas o caso concreto, mas também outros casos semelhantes de nacionais de outros países, incluindo-se os franceses, cubanos ou chineses.
Nesse passo sou também pela manutenção do asilo, já que presente o temor de perseguição política no caso. A ser realizado outro julgamento, este sim, com base no direito atual, sem as exceções, com conjunto probante mais robusto, guarnecido de provas outras que não apenas o depoimento de suposto participe, aí sim assistiremos a Justiça prevalecer. Como andou esse caso merece, sim, a guarida do Estado Soberano Brasileiro.
E a decisão do nosso Ministro Tarso Genro manteve-se, apesar de ele próprio frisar, em determinado trecho, seu reconhecimento de que o Recorrente envolveu-se em organizações ilegais criminalmente perseguidas no Estado requerente.
Apesar do meu ponto de vista ser geralmente contrário à posição do Ministro, por pura opinião, diga-se, confesso que no caso em particular devo concordar com a conclusão, com os senões colocados.
No próximo texto explanarei melhor meu pensar. Neste, por amor à verdade, me vi forçado a transcrever o voto do Ministro o que prejudicou, pela extensão, uma análise mais aprofundada do ali exposto.

2 Comentários:

Pelirroja disse...

Agora eu consegui postar! Mas no texto anterior, não. Estranho. Hihihi.

Vou ler o texto do advogado.

Cris disse...

Perfeito o texto Atila! Parabeniza seu advogado!

Acho que nem tudo ta perdido... Pode ser que ainda haja alteraçao do caso! Estou torcendo!

Um beijo

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